ALEGRIA E VONTADE NAS PERNAS: TEM FUTEBOL NA ALDEIA TAVA'Í

A estreita e única rua que corta a Aldeia Tava’í está mais movimentada do que o normal na manhã deste sábado, 8 de junho. Além de carros com placas de Joinville, Araquari, Palhoça e até mesmo de cidades do Paraná, vans estacionam no pequeno pátio atrás da escola da comunidade.

 

Enquanto toma um chimarrão na garagem de sua casa com visão privilegiada da área, a família do cacique Kuaray Papá acompanha a movimentação. De vez em quando alguém se aproxima para cumprimentá-los, senta para compartilhar um mate e conversar um pouco. São parentes que vivem em outras aldeias. A concepção de parentesco é ampla na cultura indígena, pouco importando a ligação sanguínea.

 

É por isso que esses visitantes estão na Aldeia Tava’í, a convite de Romário Silveira da Silva, 23 anos. Seu filho, Fernando Benite Silveira, completa seis anos de idade e a comemoração será com torneio de futebol entre os times das aldeias Guarani, seguido de uma grande festa.

Aldeia guarani ou lugar do modo de ser guarani.

Romário recebeu esse nome em homenagem ao atacante tetracampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1994, de quem o pai e o avô eram fãs. As semelhanças com o jogador de quem herdou o nome limitam-se à altura e ao número 11 na camisa.  Em campo, inspira-se em Zé Roberto, meio-campista com passagem pelo Grêmio, seu time de coração, conhecido pelo estilo voluntarioso e pela excelente forma física, em contraste com o Baixinho, que mal participava de treinamentos. Não há discrepância maior entre a personalidade desses personagens, porém, que o comportamento em frente às câmeras. Diferente do jeito falastrão e polêmico do ex-jogador e hoje senador, o Romário da Aldeia Tava'í fica tímido e desconversa quando o provoco a dizer quem é o melhor jogador do time local. "Todo mundo joga bem", sussurra.

 

O futebol serve, neste dia e em tantos outros, como uma forma de confraternização entre as aldeias. No dia a dia da Tava’í também. Luciano Benite, 27 anos, conta que quase todos os dias o grupo que integra o time da tekoa se reúne para jogar bola ao fim do dia, depois de finalizados os trabalhos que realizam em conjunto.

Jogando em casa, o Esporte Clube Tava’í foi o campeão do torneio que acompanhamos. O time é considerado um dos melhores entre as comunidades Guarani da região e pretende brigar pelo título da segunda edição da Liga Guarani do Litoral de Santa Catarina, da qual participa pela primeira vez a partir de novembro deste ano.

O campo fica aos fundos da aldeia. Atrás de uma das traves há duas casas, alvo fácil para os chutes sem direção certa. Do outro lado, quando as bolas saem pela linha de fundo, acabam parando em uma plantação de cana-de-açúcar, de onde precisam ser resgatadas. As metas são feitas de toras de eucalipto, o terreno é irregular e a grama, muito baixa, dá lugar à terra em muitos pontos do quadrilátero em que a bola rola.

 

Nelson Rodrigues talvez fosse capaz de escrever uma crônica genial sobre o futebol que se pratica aqui. De minha parte, com a consciência de que não amarro nem as chuteiras dele, cabe dizer que a vontade é o traço mais característico dos jogadores que vi atuarem ao longo deste dia. Corrijo-me. A alegria em jogar futebol é ainda maior do que a vontade.