ALDEIA TAVA'Í: O TEMPLO DE PEDRA QUE ABRIGA O POVO GUARANI

Saindo do centro da cidade de Canelinha, roda-se sobre asfalto, lajotas de calçamento antigo e estradas de terra para alcançar o bairro do Rio da Dona, no interior do município. A distância é de aproximadamente oito quilômetros, percorridos rapidamente. Ao fim da parte pavimentada, é preciso atravessar uma ponte sobre o Rio Tijucas, que depois serpenteia ao lado da estrada de chão.

 

O bairro do Rio da Dona também pode ser acessado a partir de Tijucas, cidade vizinha, pela localidade da Itinga. Não há nenhum marco que estabeleça o limite entre os dois municípios, que se unem à revelia do que está estabelecido nos mapas oficiais.

 

A geografia dessa região se parece com qualquer bairro de interior que conhecemos: pastos, casas simples com a fachada empoeirada, a torre e a cruz de uma igreja se projetando no horizonte, cercas de arame farpado na beira da estrada. Um elemento mais característico do lugar são as fábricas de tijolo e telha, motor da economia canelinhense por muito tempo e que, inclusive, tornou a cidade conhecida como Capital das Cerâmicas.

 

Seguindo em direção a um vale entre duas montanhas a estrada vai afunilando, com sítios à beira do caminho, anuns pousando tranquilamente nos mourões, galinhas d’angola correndo apressadas quando o carro se aproxima. A rua chega a um portão de madeira, em que uma placa indica: a partir dali, trata-se de terra protegida pelo Ministério da Justiça e pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Ali está a Aldeia Tava’í, como uma ilha sem mar, flutuando cravada em meio aos morros que a envolvem por todos os lados exceto pela entrada, uma comunidade Guarani Mbya.

Terra sem males.

A formação da aldeia

A criação da Aldeia Tava’í está entrelaçada com a história da família Benites. Ou Benite. Há variações nos registros em cartório do nome desse clã Guarani e parentes próximos têm sobrenomes diferentes registrados em seus documentos.

No início da década de 1990, as coisas estavam difíceis para os indígenas no Rio Grande do Sul, de onde a família é nativa. Ao relembrar a infância, o cacique Kuaray Papá, 33 anos, conta que a fome e ausência de um bom lugar para viver marcam essa época da sua vida.

 

Ele é natural de Viamão, a 15 quilômetros de Porto Alegre, nascido na comunidade rural de Cantagalo, em uma aldeia que herdou o nome da localidade. É o homem mais velho de uma família de oito filhos, seis homens – um deles já morto – e duas mulheres, filho de André Benites Vilalba e Joana Benite. Ela, posteriormente, teria mais três filhas em outro casamento.

 

Desde cedo, Marcelo, seu nome na língua não indígena, precisou correr o mundo em busca de melhores condições de vida. Cantagalo era uma “aldeia antiga”, explica, onde rareavam os recursos naturais, a caça, os peixes. A precariedade dos direitos dos povos nativos, garantidos pela Constituição de 1988, recém-promulgada, contribuía para um cenário de pouca assistência e a urbanização da região metropolitana da capital gaúcha também era fator determinante para uma situação difícil para os Guarani.

 

O pai, André, decidiu que não havia mais condições de permanecer na aldeia e colocou o pé na estrada, levando consigo toda a família. Movimento totalmente normal na cultura Guarani, que tem como traço marcante a mobilidade permanente pelo seu território tradicional, que abrange os estados do Sul, Sudeste, e Centro-Oeste do Brasil, o leste do Paraguai e o noroeste da Argentina – obviamente, em outros tempos, sem considerar a divisão territorial estabelecida com base na política.

 

Os movimentos migratórios têm motivações que passam por questões de cunho ambiental, pela relação íntima com a terra, pelas relações de parentesco, de relações hostis com inimigos e colonizadores até a dimensão do sagrado. Ecologicamente, as peregrinações eram necessárias para que se encontrasse uma terra nova, ainda não usada e boa para plantar, coletar e colher o que possibilitasse a autossustentação das famílias. No âmbito espiritual, a migração representa para os Guarani a Oguatá Porã, busca permanente pela Yvy Marãey.

Boa caminhada;  caminhada sagrada.

O problema, no entanto, eram os destinos possíveis para a família Benites, assim como para outras tantas famílias que decidiram deixar a aldeia, num tempo em que as cidades já haviam tomado conta do território que seus antepassados ocupavam. “A gente andou bastante pela estrada. Ficávamos um pouco em cada lugar e rodamos o Rio Grande do Sul todo tentando achar um lugar para ficar”, lembra Kuaray.

 

Com a situação insustentável que viviam, cerca de 40 famílias Guarani decidiram migrar para Santa Catarina, entre elas os Benites. Corria o ano de 1990 e aproximadamente 400 indígenas embarcaram na carroceria de caminhões com destino a Palhoça, na Grande Florianópolis, onde existiam terras tradicionais para a etnia, como o Morro dos Cavalos, Morro do Cambirela e Massiambu, apesar de permanentemente contestadas pelos não-indígenas.

 

O Governo do Estado de Santa Catarina, por exemplo, move a Ação Cível Originária (ACO) 2.323 contra a Fundação Nacional do Índio (Funai), em que questiona a legalidade da demarcação da Terra Indígena Morro dos Cavalos, sob a alegação de que aquela não é uma terra tradicional Guarani, negando uma série de estudos que apontam o contrário.

 

A historiadora e doutora em Etno-História Helena Alpini Rosa, 54 anos, afirma que a área sempre foi um ponto de transição para os Guarani, onde paravam durante viagens em que vinham do Rio Grande do Sul e do Oeste catarinense. “É um lugar para onde eles sempre vão voltar”, garante. De fato, estudos apontam que há um padrão circular nas rotas de migração dos Guarani, que buscavam constantemente o leste, uma vez que, de acordo com sua crença, Yvy Marãey estaria para além do Grande Mar – o Oceano Atlântico.

 

Ainda de acordo com a historiadora, há uma dificuldade de comprovação da originalidade das terras indígenas justamente por conta da migração constante que lhes é característica. Outro fator que causa essa dificuldade é a atuação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que se transformou em Funai em 1967 e fez um trabalho intenso para reservar os índios, contribuindo significativamente para a diminuição dessas populações.

 

Os indígenas que vieram do Rio Grande do Sul naquele ano de 1990, no entanto, seriam colocados na localidade de Terra Fraca, a cerca de 20 quilômetros do Morro dos Cavalos. “Hoje passo lá e está tudo diferente. Lembro que chegamos sem casa, sem auxílio nenhum”, comenta Kuaray. Ficaram apenas dois anos até serem remanejados para outra área no Massiambu, em um espaço de quatro hectares, cercado por propriedades particulares que limitavam o acesso aos recursos naturais.

 

Algumas famílias ficaram, outras se mudaram para o Morro dos Cavalos e outras, ainda, como os Benites, voltaram ao Rio Grande do Sul, para a beira das estradas. “Fomos parar embaixo da ponte mesmo, numa situação bem precária”, comenta o cacique. Ainda assim, parecia melhor. Na margem das rodovias era possível conseguir doações de roupas e comida ou trocar peças de artesanato tradicional por alimentação.

 

As coisas não melhoravam, no entanto, e o retorno a Palhoça para, novamente, viver entre uma e outra das três aldeias localizadas na cidade foi a decisão de André. Em 1997 estavam de volta, desta vez para ficar. Por essa época, pontua Kuaray, o apoio de órgãos como a Funai havia se intensificado e a vida também parecia dar sinais de melhora.

 

Ficar talvez seja um dos verbos que menos condiz com o modo de vida Guarani, mas, nos tempos em que vivemos, passa a ser parte da sua realidade. “Não é mais possível buscar a terra sem males”, assegura o cacique, não sem certa amargura. Essa busca está, agora, mais restrita ao plano espiritual, sendo mantida através da preservação da cultura e espiritualidade.

 

Quanto à terra, no aspecto territorial, buscam defendê-la, manter uma relação harmônica com a natureza e ter respeitado o direito à demarcação, o que não era nem aventado pelos Guarani anteriormente, uma vez que não havia entre eles esse senso de propriedade do território.

 

No início dos anos 2000, intensificavam-se as discussões sobre a duplicação do trecho de aproximadamente 350 quilômetros da rodovia BR-101 que liga Palhoça a Osório, no Rio Grande do Sul. A obra seria iniciada em 2005. Como a estrada corta a TI Morro dos Cavalos e passa rente à TI de Massiambu, lideranças Guarani passaram a se reunir para debater internamente e com os órgãos governamentais qual seria o seu posicionamento.

 

Nesse momento, vale uma reflexão sobre os impactos causados por uma rodovia que corta as terras indígenas dessa maneira. Sobretudo para um povo que possui uma cultura de valorização do seu território tradicional e íntima ligação com os lugares por onde transitam historicamente, a BR-101 representa o avanço incontrolável do mundo dos juruá sobre os seus territórios. 

Não indígenas.

Tava: casa de pedra; estrutura de pedra onde os antepassados viveram e deixaram suas marcas;

O acréscimo do sufixo "í" traz uma dimensão espiritual à expressão. Algo como um templo sagrado.

Acesse.

Mais do que esse movimento de opressão cultural, a rodovia custa vidas Guarani. Dos Benites, levou a avó e o irmão do cacique Kuaray, atropelados. Florentina Benite morreu aos 70 anos de idade e Fernando Benite com apenas dez.

 

É provável que esses episódios tenham contribuído para a decisão de André, que considerou que deixar de vez as aldeias de Palhoça e buscar um novo lugar para se estabelecer era o melhor a se fazer. “Em 2002 os caciques se entenderam [e decidiram] que era melhor comprar uma terra do que ficar lá, arrumar uma casa melhor, adequar um espaço melhor de plantio, procurar uma estabilidade”, explica o cacique Marcelo.

 

Levou dois anos até que a Funai tivesse o recurso para a indenização e compra de áreas para realocação dos moradores das aldeias afetadas pela duplicação. Nesse período, o jovem Kuaray, que já atuava no movimento pelos direitos dos indígenas desde os 13 anos de idade, passou a acompanhar seus pais na procura pelo lugar para instalarem a sua nova aldeia.

 

Passaram por Anita Garibaldi, Garopaba, Paulo Lopes, Penha, Major Gercino, Brusque e não encontravam uma terra que lhes agradasse. Com a inquietude típica dos jovens, Kuaray se queixava da dificuldade em encontrar o lugar ideal. Em contraponto, com a confiança quase inabalável que os indígenas parecem demonstrar, seus pais garantiam: “Nós vamos conseguir”.

 

Quando chegaram no interior de Canelinha para conhecer uma fazenda colocada à venda pelo proprietário, André não teve dúvidas: “Aqui vai se chamar Tava’í”. Na fazenda havia uma serraria, fornos para fabricação de tijolos e a vegetação nativa havia sido praticamente toda suprimida, dando lugar ao eucalipto para produção de lenha.

"Eu questionei um pouco o meu pai porque eu não estava vendo. Tinha bastante limão e goiaba, mas Tava’í eu não via".

 

Kuaray Papá

“Eu questionei um pouco o meu pai porque eu não estava vendo. Tinha bastante limão e goiaba, mas Tava’í eu não via”, recorda Kuaray. André sentou-se com o filho em uma pedra e lhe apontou as montanhas em volta do lugar, como se representassem um templo de rochas que envolvia e protegia aquele vale. “É verdade, é isso que esse lugar passa mesmo”, compreendeu.

Não bastava que um grupo apenas escolhesse o novo local onde se estabelecer. Era necessário que todas as lideranças envolvidas no processo de realocação fizessem suas escolhas, uma vez que esse movimento levou à criação de quatro novas aldeias. Além da Tava'í, foram fundadas a Mymba Roka e a Itanhaé, em Biguaçu, e a Wy’a, em Major Gercino.

Com pouco mais de 200 hectares, a antiga fazenda foi comprada por R$ 750 mil. Era 18 de abril de 2007, uma quarta-feira, quando as primeiras quatro famílias chegaram ao local. André Benites Vilalba, liderança indígena desde os anos 1980, assumiu o posto de cacique da comunidade e passou a estruturá-la.

As moradas da Tava’í

Logo que a mudança para a aldeia foi formalizada, André utilizou uma verba da indenização para construir sete casas e indicou qual delas cada família deveria ocupar.

A aldeia cresceu: hoje ela é formada por 17 famílias, totalizando uma população de aproximadamente 70 pessoas, divididas em 13 casas – em algumas, mais de uma família vivem juntas.

 

Quando há a chegada de alguma nova família, o procedimento, basicamente, é de procurar uma morada que esteja disponível e, quando há mais de uma opção, escolher a que mais agrada para, então, pedir permissão ao cacique para ocupá-la. Os moradores não têm, no entanto, a propriedade da residência, apenas o direito de utilizá-la enquanto viverem na aldeia.

Quando se mudou para a casa em que vive com a família hoje, Kuaray ainda estava solteiro e não era cacique. Trabalhava como professor na escola da aldeia e vivia em outra morada, um pouco mais para o interior da comunidade, quando um dos irmãos propôs uma troca. “Falei: vou morar perto da escolinha, melhor pra mim”, relembra. A casa, de fato, fica bem no centro da aldeia, a rua passando entre ela e a escolinha, logo à sua frente.

Ele parece nunca ter pensado na localização privilegiada até que comento sobre isso enquanto conversamos em sua garagem. Virando levemente a cabeça, o vento agitando o cocar que envolve seu pescoço, olha para a estrada e concorda. “Acho que hoje que tô percebendo. Tô meio guarda, cacique, vigia, sei lá, cuidando de tudo”, diverte-se.

Trabalho coletivo

A tarde da sexta-feira, 13 de setembro, está nublada, fria e um vento forte balança as malhas de bambu que ficam atrás da escolinha da aldeia. O vento, aliás, parece constante por aqui, provavelmente em virtude das montanhas que cercam o lugar e fazem com que ele circule pela área com força.

Enquanto as aulas acontecem, alguns homens trabalham fazendo a base de uma construção anexa à escola. Toras de madeira que farão a sustentação da cobertura já estão posicionadas e as covas para receber vigas de concreto sendo cavadas. O pequeno salão, de pouco mais de 30 metros quadrados, vai servir como área de convivência, local para confraternizações e reuniões.

A rotina dos moradores da aldeia tem muitos momentos como este, já que a grande maioria das tarefas da comunidade é realizada coletivamente. Essa pode ser mais uma mudança no comportamento Guarani, ao menos em relação às atividades desempenhadas. “Antigamente as nossas atividades eram mais de pescar, caçar, plantar, cuidar da roça, viver do costume, fazer as cerimônias, os rituais. Acordava, ia pro mato fazer armadilha pra pegar a caça ou ia pro rio pescar. Não tinha nenhum problema”, compara o cacique.

 

Sem uma área em que caça, pesca e frutos sejam abundantes, a dinâmica contemporânea da vida apresenta outras exigências. Com a estabilidade em um único local, passam a surgir necessidades dos indivíduos que ali vivem e que precisam de braços para serem satisfeitas. “A gente constrói uma casa de reza. Aí pensamos: precisa ter um banheiro. Então todos se juntam e vamos construir”, exemplifica.

 

Não há uma idade específica para começar a integrar o grupo que realiza os trabalhos, mas cada família cede, geralmente, um homem para ajudar. “O trabalho é livre, mas os homens, os meninos têm que participar para aprender porque vai servir quando formar o casal. Como que tu vai casar e não vai saber construir? Não vai saber plantar? Como que tu vai sustentar a tua família?”, explica Kuaray.

Renda

As atividades dos índios da aldeia, porém, não se restringem ao trabalho coletivo. Muitos têm suas profissões e atuam, principalmente, na comunidade. São merendeiras, professores, agente de saúde, agente de saneamento básico, agente ambiental e, recentemente, um dos moradores foi contratado como motorista da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), uma das reivindicações atendidas pelo órgão após protestos dos indígenas realizados no mês de julho. Além disso, algumas famílias recebem benefícios como o Bolsa Família e os idosos, aposentadoria.

 

Enquanto fala sobre as condições de vida dos moradores da aldeia, Kuaray vai percorrendo novamente os caminhos da sua infância. Lembra que quando sua família peregrinava à beira das estradas, comia o que recebia em doação de restaurantes. Roupas e calçados, arrisca, deve ter usado modelos femininos sem nem se dar conta, porque também eram doados.

 

“Meu pai tinha que fazer trinta balaios pra vender ou trocar por comida. Como pai, hoje, quero dar para os meus filhos o que eu não tive”, afirma. E garante que, enquanto liderança, sente-se extremamente feliz por saber que, na sua comunidade, não há quem passe necessidades e que as dispensas das casas têm comida. “Quando eu vou para uma viagem e estou me alimentando bem, eu lembro deles. Sei que todo mundo está bem aqui também, isso me traz muita força”, ressalta.

E não é só comida que os índios querem. O cacique questiona o pensamento que povoa o senso comum, de que a manutenção da cultura indígena estaria condicionada a que eles não usufruíssem do conforto trazido pelas tecnologias. “Por mais que a gente tenha uma cultura diferente, por que não podemos desfrutar de andar bem, se vestir bem, comer bem, aproveitar a vida? Hoje a gente está fazendo isso”, pondera.

Alimentação

As despensas das casas da Aldeia Tava’í estão cheias e isso é motivo de alegria. Mas também não deixa de trazer preocupação, já que o consumo de alimentos industrializados cresceu muito entre os indígenas. “A vida hoje é mais tranquila, mas também é mais perigosa”, avalia o cacique Kuaray Papá.

 

De acordo com Maria Beatriz da Rosa, 39 anos, nutricionista da Sesai, há um aumento significativo nos casos de doenças relacionadas à inclusão de alimentos industrializados na dieta dos indígenas. Eles estão mais suscetíveis à hipertensão, diabetes, sobrepeso e os idosos têm sofrido com peso abaixo do recomendável. Esse panorama motiva, inclusive, uma campanha educativa que a nutricionista tem desenvolvido nas aldeias para conscientizar os índios sobre a importância de uma alimentação mais saudável e incentivar a prática de atividades físicas.

 

Comprar comida nos supermercados, porém é uma necessidade, porque o alimento tradicional já não é abundante como antes. Embora esteja bem próximo à aldeia, o Rio Tijucas, que passa por sete cidades antes de correr por Canelinha, está poluído. Nas matas dos morros que envolvem a comunidade, a caça rareia.

 

O que ainda é possível fazer para manter os hábitos alimentares tradicionais é plantar os próprios vegetais. Cada família, no pequeno espaço disponível no entorno da casa que ocupa, cultiva o que preferir. Há roças de milho, aipim, batata-doce, feijão e frutas, trocados entre os moradores em sistema de escambo.

 

“A gente planta só o necessário para o consumo da família. Não adianta plantar quinhentos ou mil pés de feijão se vai consumir só trinta e jogar o resto fora. Temos muita dó disso”, afirma o cacique.

Caía uma chuva leve mas insistente na tarde do sábado, dia 26 de outubro, e, de repente, o sol apareceu sobre o Templo de Pedra dos Guarani. No terreno aos fundos de casa, Kuaray, a esposa e um ajudante trabalham recuperando uma pequena travessia de madeira, utilizada para transpor uma valeta, e um poleiro. No espaço, criam porcos e galinhas e são os pintinhos que motivam o reparo no galinheiro. Chiclete, um filhote vira-latas marrom, anda abocanhando alguns deles e ameaça a criação da família.

A abertura no tempo foi providencial para que pudéssemos levantar voo com um drone e registrar imagens aéreas da aldeia. Pela tela de um tablet, foi possível visualizar a aldeia inteira, a estrada de terra branca se insinuando por entre as casas, pequenas roças atrás de cada uma delas e as montanhas que cercam o lugar. Aquelas apontadas por André para que o garoto Kuaray compreendesse o nome que ele escolhera para a comunidade. Linhas de transmissão de energia elétrica que cortam os pastos da região interferiam no desempenho do equipamento, limitando a altura do voo a uma centena de metros.

 

No campo de futebol da aldeia, algumas meninas brincavam de bola e um grupo de crianças se divertia livremente. Um alvoroço tomou conta dos pequenos quando a bugiganga deu alguns rasantes. Corriam ao seu encontro, fugiam dela e se aglomeravam em torno da equipe para ver por outro ângulo, no tablet, o lugar onde vivem. Quando um bando de urubus passou a voar em torno do equipamento, uma das meninas, apontando os pássaros, exclamou: “Olha lá, esse é o nosso drone!”.

Nesse meio-tempo, uma anciã saiu de sua casa construída em taipa e caminhou lentamente em direção ao mato onde a aldeia termina. O lenço que lhe envolvia a cabeça permitia entrever apenas parte do rosto sulcado pelas marcas do tempo. Nos braços, carregava um punhado de ervas. Desapareceu numa trilha antes que fosse possível alcançar a câmera fotográfica para registrá-la.

Nesse instante, parece que se revelava, ao vivo, uma fotografia do momento que atravessam os povos indígenas. Populações milenares, que caminham por trilhas, mantêm uma relação de simbiose com a natureza e, ao mesmo tempo, reconhecem e se relacionam com novidades tecnológicas como a mosca branca que sobrevoava a Aldeia Tava’í naquela tarde.