KUARAY PAPÁ: O BRILHO DO CACIQUE

Kuaray Papá era um adolescente de treze anos de idade e teve um calafrio quando ordenaram que o representante da Terra Indígena Cambirela se apresentasse. Estava cercado por caciques muito mais velhos e sentiu-se intimidado. Havia viajado em uma comitiva, mas era o único representante da sua aldeia no encontro em que se discutiria o processo de demarcação de terras indígenas. Caminhara cerca de 25 quilômetros em direção ao interior de Registro, na região do Vale do Ribeira, Sul de São Paulo, para chegar à Aldeia Pindoty, onde passou cinco dias.

Precisou deixar o medo de lado rapidamente e ficou de pé para se mostrar, pela primeira vez, diante dos líderes dos povos indígenas. “Foi ali que começou, ali eu gostei de ser liderança. Aí, toda vez que o pai não ia, eu dizia: ‘Ah, já tô pronto pra ir!’”, recorda. André Benites Vilalba, o pai, gostou da ideia e passou a enviar o filho como seu representante sempre que havia compromissos em lugares distantes, que exigiam uma estadia prolongada.

 

A verdade é que André não gostava muito desse tipo de função. Até participava das reuniões quando aconteciam mais próximas de onde a família vivia e, sempre que possível, retornava para aldeia no mesmo dia. Enxergou no filho homem mais velho alguém que podia representá-lo à altura e Kuaray passou a ser presença constante entre as lideranças tradicionais.

 

Marcelo Benite, seu nome em português, ainda era jovem, mas carregava uma experiência considerável de vida. Ele nasceu em 03 de julho de 1986, na Aldeia Cantagalo, interior de Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre (RS). Não havia recursos naturais que provessem o sustento das famílias naquela aldeia antiga e a fome espreitava os Benites. A saída encontrada por André e a esposa, Joana, foi pôr o pé na estrada, os filhos a tiracolo, em busca de uma condição melhor de vida. Os desdobramentos dessa história estão contados aqui.

O nome é um destino

Enquanto vivia os percalços daquele tempo de miséria, Kuaray formava sua personalidade. Os pais evitavam que o menino se relacionasse com gente da mesma idade, incentivando sua convivência com os mais velhos. Foi essa a sua maior escola na cultura Guarani, já que as mudanças constantes não permitiam que a família ficasse muito tempo em uma mesma comunidade. “Com toda essa ida e vinda, a gente não conviveu muito na aldeia. E na aldeia é onde se vive da cultura, [por isso] não desfrutamos do conhecimento Guarani”, lamenta.

Se Kuaray teve pouco contato com o conhecimento tradicional, foi íntimo da hostilidade da sociedade. Sua família e uma outra ocupavam uma pequena área na Terra Indígena Cambirela, em Palhoça, que tinha limites tênues com áreas particulares. O proprietário os ameaçava, prometendo atear fogo nas moradias do grupo. “Vocês não são índios, não são daqui!”, vociferava.

 

Kuaray e os irmãos menores assistiam a tudo isso e ele sofria com a falta de perspectivas. Precisou amadurecer cedo para acompanhar o pai, liderança Guarani desde a década de 1980, no movimento em defesa dos direitos dos indígenas. Incorporava, então, o que seu nome predestinava, segundo a crença de sua etnia.

Cai a tarde de sábado, 16 de março, e o calor vai diminuindo. Na garagem de sua casa na Aldeia Tava’í, Kuaray Papá e a esposa, Deise Montiel, estão sentados lado a lado. A conversa já dura horas e o tereré, gelado, com pequenos pedaços de gengibre junto do mate, ajuda a refrescar. Ali, o atual cacique da comunidade explica o significado do seu nome: brilho do sol, destinado a iluminar o caminho dos seus, a desempenhar um papel de liderança. Enquanto isso, um Fiat Uno com um alto-falante sobre o capô cruza a aldeia, anunciando picolés a preços módicos.

Guerreiro, soldado.

Kuaray recebeu esse nome em uma cerimônia de batismo quando tinha quatro anos de idade. “Meu nome é muito forte mesmo. Ele é um [nome de] guerreiro mesmo, que dá a proteção para a família, para os irmãos, é um xondaro guerreiro, soldado também”.

Parecia uma certidão que o creditava a acompanhar o pai nas andanças da luta política que o levaria, sozinho, àquela reunião em Registro. Apesar do receio que sentiu ao ser chamado, ele conquistou a confiança dos mais velhos de cara. A partir daí, se tornou um ativista pelo espaço dos jovens no movimento indígena.

Vinte anos depois, ainda um cacique jovem, Kuaray é uma referência nessa causa. “Tudo o que eu plantei, hoje eu colho. Em tudo que é lugar hoje eu sou chamado pra fazer palestras para os jovens, conversar com eles sobre a nossa luta. Sou conhecido como conselheiro dos jovens”, relata.

A vida é cedo

Quase tudo na vida desse líder Guarani parece ter acontecido de maneira precoce. Aos 17 anos, voltara a viver em Viamão, estava casado e já esperava o primeiro filho. Soube que seria um menino quando teve um sonho místico, em que sentiu que a criança era enviada da Morada dos Anjos. Bruno está com 16 anos, quase a mesma idade que o pai tinha quando ele nasceu.

 

Marcel, o segundo filho do primeiro casamento, nasceria cinco anos depois. Tinha apenas um ano quando os pais se separaram e Kuaray voltou para a Aldeia Tava’í, fundada pelo pai pouco tempo antes, deixando os meninos com a mãe. Hoje, pai e filhos mantêm contato por telefone e internet, mas não se veem há três anos. Kuaray se ressente: “Quando deixei meus filhos, doeu bastante. Pensei: ‘Eu tenho uma cultura tão diferente, tenho uma sabedoria, e estou deixando eles’”.

Há três anos, quando os pais de Kuaray se separaram, André resolveu renunciar ao posto de cacique da Tekoa Tava’í e se mudou para Major Gercino. Só o fez, Kuaray acredita, porque havia preparado o filho para esse momento durante toda a vida: “Ele deixou porque eu estava aqui, ele acreditou muito em mim, porque sabia que eu ia mudar as coisas”.

Quando pai e filho se sentam nesta mesma garagem onde o cacique se balança em sua cadeira, André, hoje com 51 anos, demonstra certa tristeza por ter abandonado o posto. Kuaray sente pelo pai, mas sabe que precisa ser firme enquanto liderança da comunidade. Mesmo assim, ele agradece os ensinamentos de André. “Eu sei que devo tudo a ele, foi quem começou toda essa conquista. Eu falo que sou apenas um guardião que estou cuidando de tudo que ele conseguiu”.

"Eu sei que devo tudo a ele, foi quem começou toda essa conquista.  

 

Kuaray Papá 

Aldeia guarani ou lugar do modo de ser guarani.

Modo vulgar de se referir aos cachorros.

Duas câmeras estão direcionadas para registrar a entrevista de Kuaray Papá. À sua volta, os djaguás Android e Chiclete repousam, refestelados à sombra que alivia o calor da tarde. Os cachorros – são muitos – vivem livres pela aldeia. Para os Guarani, são guardiões da noite. Piriguete, a cadela que acompanhava Android na vigília da casa do cacique, morreu no início do ano por causa de uma picada de cobra. Na segunda visita que fiz para esta série de reportagens, Kuaray foi até sua casa e voltou com um vidro de conserva em que mantinha a pequena jararaca morta conservada em álcool: “Ela poderia ter picado a minha filha. A Piriguete nos protegeu”.

O cacique é pop

Kuaray já viveu muitas coisas ao longo de uma vida cheia de desafios. Em abril deste ano, durante a programação cultural realizada anualmente em alusão ao Dia do Índio, um aluno de uma escola que visitava a aldeia perguntou se ele precisou passar por provas para se tornar o cacique da aldeia – provavelmente imaginando testes que sugerissem certo heroísmo. A resposta foi curta, mas pareceu ricochetear pelas paredes da Opy’i: “Os desafios vêm desde que nasci”.

Casa de reza

Não indígenas.

As réplicas concisas e o silêncio fazem parte do comportamento dos indígenas. Em um mundo em que se fala demais – muitas vezes, sem necessidade –, os djuruá com frequência se incomodam. Necessitam de respostas, precisam falar. Kuaray Papá tem seus momentos de silêncio,  mas geralmente fala mais do que seus parentes Mbya. Está acostumado a discursar em reuniões, a conversar com muitas pessoas fora da aldeia e a conceder entrevistas para universitários e jornalistas.

Etnia Guarani.

Parte dessa desenvoltura, supõe-se, também vem da veia artística que cultiva desde a adolescência. O cacique pegou num violão pela primeira vez aos 15 anos e se encantou. Como professor de arte Guarani, em Viamão, fundou o Grupo de Canto e Dança Nhe’Ambá, e sentiu sua mente viajar para longe quando começou a compor suas próprias músicas com os alunos. “A música é infinita. A gente faz uma música para alimentar o espírito”, filosofa.

 

Não é só a música tradicional, no entanto, que desperta o seu interesse. Depois de aprender a tocar violão, Kuaray passou para a guitarra. Acompanhado ao teclado pelo irmão Luciano Benite, animou pequenos bailes em aldeias e bares, tocando música sertaneja e gauchesca. Só abandonaria a função ao se casar com a atual esposa, Deise Montiel, 35 anos.

 

Caminhando em direção à estrada que passa em frente à sua casa, o cacique sorri com gosto ao contar uma novidade: recentemente, ele foi procurado pelo pessoal do Centro de Estudos Budistas Bodisativa (CEBB Mendjila), instalado em Canelinha desde 2015. Muita gente vive nos limites dessa instituição, inclusive alguns artistas, responsáveis por fazer florescer um movimento cultural bastante produtivo na cidade. Alguns deles, por exemplo, fundaram o Olaria Coletivo de Artes, que promove a Marafunda Cultural, evento que proporcionou a primeira apresentação do grupo cultural da Aldeia Tava’í no município.

 

A aproximação rendeu o projeto de um gibi que vai contar a história de Kuaray Papá, as ilustrações ficando a cargo do seu irmão, Luciano. Visivelmente orgulhoso, o cacique incorpora o personagem da história em quadrinhos, cerra os punhos e põe o braço direito na frente do rosto, como se portasse um escudo.

"Eu era um índio bad boy, de cabelo moicano. Cheguei lá [e pensei 'e aí, o que eu vou fazer?'"

Kuaray Papá 

Romance virtual de um índio bad boy

A pequena Eloá, quatro anos, dispara da escola da aldeia até sua casa, onde o pai está sendo entrevistado, e fica saltitando por ali. O cacique precisa repreender a menina para seguir a conversa. Dando piruetas em um balanço, a garotinha pede para ser fotografada e logo corre para olhar no visor da câmera como ficaram as fotos. Ela é a única filha de Marcelo e Deise, casados há sete anos.

Cerca de quatro anos atrás, Kuaray havia se separado e trabalhava como professor na escola da aldeia. Como casou e teve filhos muito cedo, só então estava conseguindo ser mais atuante na militância pelos direitos indígenas e viajar, ora a outras aldeias em compromissos, ora a passeio.

Nessa época, criou um perfil no Facebook e disparou convites de amizade na rede social. Um deles foi para Deise, uma Guarani Kaiowá moradora da Aldeia Sossoró, em Tacuru (MS), a 450 quilômetros de Campo Grande. Quando ela aceitou a solicitação, os dois passaram a conversar.

 

Marcelo lembra que contou a Deise tudo o que fazia, inclusive a parte das apresentações como músico na noite, o que acendeu um alerta na sul-mato-grossense. De família evangélica, ela imaginava que teria problemas se apresentasse alguém com aquele perfil aos pais. Ademais, deve tê-lo considerado pretensioso por afirmar que, em breve, seria o cacique da aldeia. “Ela até pensava que eu era fake”, diverte-se Kuaray.

 

A troca de mensagens durou um ano, aproximadamente. O desejo de se conhecerem melhor era adiado pela distância e pelo compromisso como professor. Quando, enfim, conseguiu embarcar em um ônibus e fazer a viagem de mais de mil quilômetros, Kuaray foi apenas com o dinheiro da passagem de ida, que conseguiu emprestado com a mãe.

Só no caminho descobriu a orientação religiosa da pretendente. “Eu era um índio bad boy, de cabelo moicano. Cheguei lá [e pensei] ‘e aí, o que eu vou fazer?’”, relembra entre risadas. Sem ter grana para o retorno, se viu diante de um desafio diferente. Mas, como tem feito ao longo da vida, o enfrentou. “Tive que ser homem e assumir ela como minha esposa lá mesmo”, assegura.

 

Vivem juntos desde então, a despeito da diferença cultural existente entre as duas etnias – ainda que pertençam ao tronco Guarani. “Acredito que, se fosse há cinquenta anos, nenhuma das duas famílias aceitaria”, pondera. Deise ainda ficaria no Mato Grosso do Sul até concluir o curso de Matemática na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Só então se mudou para a Aldeia Tava’í.

Além de Eloá, vivem com o casal os dois filhos do primeiro casamento de Deise: Kenneth, de 12 anos, e Kendredy, de dez.

O cacique é um político

O cocar sempre acompanha o cacique Kuaray. Usa-o, na maior parte do tempo, sobre o pescoço. Durante a entrevista deste 26 de outubro, em que foram registradas as imagens em vídeo que ilustram esta reportagem, brinca com os fios que prendem o acessório à cabeça quando o faz. Já exibia o rosto pintado quando nos recebeu nesse sábado, preparado para as câmeras. Quando rec é pressionado e peço autorização para começarmos, não hesita: “Bora!”.

Antes de se casar, Kuaray estava direcionando toda a atenção para o trabalho como professor. Havia deixado de lado a atuação como militante e pensava em ter um pouco de sossego, aproveitar o salário que recebia lecionando e viver tempos de tranquilidade com a família.

Mas o destino, aquele determinado em seu batismo, inescapável, sempre chamava à luta novamente. Encontrou em Deise a parceira que apoia suas andanças em busca das demandas da sua comunidade. “A minha esposa é formada, tem outra mentalidade. Então voltei a trabalhar como liderança”, recorda.

Hoje ele integra a Comissão Nhemonguetá, que reúne lideranças Guarani de Santa Catarina e do Paraná. A entidade integra a Comissão Nacional Guarani Ywyrupa (CGY), membro da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), responsáveis pela articulação dos povos indígenas na busca pelo reconhecimento dos seus direitos.

Kuaray desempenha, atualmente, um trabalho de base, prestando suporte às representantes dessas organizações.  Como coordenadoras estão Kerexu Yxapyry (Ywyrupa) e Elizete Antunes (Nhemonguetá), demonstrando a ascensão das mulheres na sociedade indígena. Estas organizações lideram ações como a ocupação do DSEI Interior Sul, em defesa da saúde indígena, no último mês de julho

Em um ambiente político que parece cada vez mais hostil com as populações indígenas, Kuaray demonstra preocupação com a exposição a que estão sujeitas as lideranças desses povos. “Eu não queria estar no meio dos representantes porque é muita pressão, muita injustiça. Nessa posição a gente tem que tomar muito cuidado, porque podem surgir pessoas ofertando coisas para você não lutar pelos direitos. É muito perigoso”, adverte.

Nosso Pai, Deus.

A pajelança espreita

Quando recebeu seu nome, aos quatro anos de idade, além da predestinação para a liderança, o pajé intuiu que o propósito de Kuaray Papá é se tornar um pajé. Os Guarani têm como prática a renovação do ritual do batismo algumas vezes ao longo da vida, para que sempre se lembrem da missão que Nhanderu lhes reserva.

Faz oito anos que Kuaray procurou um sábio para, já com a compreensão de adulto, ouvir novamente o que o futuro lhe reserva. A resposta dada pelo pajé coincidiu com a visão daquele que o batizou pela primeira vez. No último mês de outubro, em viagem para Aldeia Rio Silveira, em São Paulo, esteve na presença de um pajé da localidade, que também o advertiu para que se prepare para aceitar esse dom.

Ao falar sobre o assunto, desvia o olhar e o rosto ganha ares de preocupação. Não que considere a previsão uma maldição, mas um fardo. Ser pajé requer, de acordo com Kuaray, um pensamento totalmente transparente. “Eu vou ter que andar mais afastado de tudo. É um peso, porque tem que deixar toda a vaidade, ser muito simples”, comenta.

O posto de cacique, de acordo com os pajés com quem se aconselhou, é como um estágio intermediário para alcançar a condição de liderança espiritual. “Eu não sou cacique por ser cacique. Eu sou um conselheiro e quando me tornar um pajé as pessoas vão me procurar ainda mais, como um avô de todos”, presume.

Embora pareça querer que não fosse essa a sua sina, Kuaray já reconhece alguns sinais de que ela ronda sua personalidade. Como cacique, suas atribuições incluem o papel de juiz, que cobra os membros da comunidade quando cometem erros. “Eu não estou tendo essa coragem. Por isso parece que eu estou percebendo que está chegando a hora de eu me tornar um pajé”, sugere.

Enquanto não incorpora por inteiro a pajelança, porém, Kuaray Papá segue servindo como referência para a comunidade que lidera. E não perde uma oportunidade sequer de sentar diante de uma câmera para enfrentar a carga de falar sobre a cultura Guarani Mbya, o que, afirma, o emociona, mas também entristece.

Os muitos papéis do cacique

Marcelo veste a camisa oito do Esporte Clube Tava’í. Em campo, se posiciona bem no ataque e tem faro de gol. Foram vários no torneio que acompanhamos. Gesticula, ergue os braços e orienta o time durante os jogos. Mesmo quando o assunto é futebol, demonstra a sua predisposição à liderança.

Kuaray é um, mas é muitos. Aconselha os mais jovens, corre por aí em busca de melhorias para a sua comunidade, compõe suas canções, cuida das crianças, é professor. “Meus lados são esses. Músico, compositor, cacique, coordenador, trabalhador, jogador, professor. Sou um pouco de tudo, né?”, sugere.