NA OPY'I, COM AS BÊNÇÃOS DE UM PAJÉ MUITO JOVEM

O ambiente é escuro, iluminado exclusivamente pela luz que entra pela porta, única abertura nessa construção que tem paredes sustentadas por troncos finos de madeira e uma massa feita da mistura de um barro claro e cimento. O chão é de terra batida, muito firme, com algumas irregularidades.

 

Logo ao entrar no lugar, percebe-se que o cheiro da fumaça impregna o ambiente. No chão, próximo à porta, alguns pedaços de madeira formam uma fogueira quase apagada, com as cinzas se acumulando ao centro. Completamente enegrecida pelo fogo, uma velha chaleira está depositada no chão, ao lado dos galhos queimados.

O cacique Kuaray Papá e o pajé da Aldeia Tava’í, Karaí Reté, estão sentados lado a lado diante da fogueira dormente. Basta que revolvam levemente as cinzas para que o fogo reacenda, fazendo a madeira crepitar. Em cerca de uma hora e meia de entrevista, usaram o isqueiro para acender o petanguá apenas uma vez. Em todas as outras, bastou alcançar um pedaço menor de pau e reavivar a brasa na sua extremidade.

Cachimbo utilizado

pelos Guarani.

Cachimbo utilizado

pelos Guarani.

Modo de ser Guarani.

Na Opy’i não há imagens, estátuas ou figuras sacras nas paredes. Não há altar. A Casa de Reza dos Guarani reflete a singeleza de um povo que baseia toda a sua cultura na relação com o sagrado e dispensa o culto aos símbolos.

A força desse lugar reside no seu significado para os indígenas. É na Casa de Reza que são batizadas as crianças, são abençoadas as colheitas, são realizadas as curas e onde se transmite os saberes que integram o nhandereko.

O batismo

O batismo é o principal ritual dos Guarani. Na cerimônia, os indígenas recebem o nome, geralmente com idades entre um e cinco anos. Repleta de significados, a alcunha é associada ao destino da pessoa, determinante na sua posição na organização social da aldeia em que vive.

Para que a cerimônia seja realizada é necessária a oferta de alimentos. Culturalmente, o milho tradicional é a semente mais importante nesse ritual. Hoje, segundo o cacique Kuaray, há escassez desse tipo de milho e recorre-se a outras opções que possam ser encontradas no território das aldeias, tais como amendoim, jataí e mel ou, na ausência destes, um pão feito de milho comum.

 

Os alimentos são servidos em uma espécie de banquete para Nhanderu na Opy’i. A liderança espiritual sorve a fumaça do petanguá, estabelece uma conexão com o Grande Espírito, que lhe transmite o nome que a criança deve receber.

Nosso Pai, Deus.

Como há a consagração dos alimentos, a cerimônia do batismo está intimamente relacionada com os ciclos da natureza. Quando o inverno vai dando sinais de arrefecimento, é hora de plantar a próxima safra. Quando os frutos estiverem prontos, realiza-se a colheita, faz-se o ritual e, na cultura Guarani, inicia um novo ciclo. “Quando a gente faz a colheita chamamos de ano-novo”, explica o cacique, enquanto o pajé bebe mais um gole de mate, fazendo chiar a bomba.

Dar nome às crianças, porém, não é a única finalidade do ritual do batismo. Se alguém se sente desconfortável com o seu nome e sente que ele precisa ser mudado, pode procurar o pajé para ser rebatizado, se o sábio concordar. Na ocasião, ainda, ele aconselha e verifica se as pessoas estão bem de saúde. “Nós carregamos nosso espírito e, muitas vezes, por falha nossa, ele se sente mal com nosso corpo”, comenta Kuaray, traduzindo o que o pajé acabara de explicar em Guarani.

 

No banquete oferecido a Nhanderu, cada família da aldeia é responsável por apresentar seu quinhão, parte que lhe cabe no momento em que a comunidade se reúne para comer, após a cerimônia. Para saber o estado de saúde do indivíduo, o pajé fuma seu petanguá e sopra lentamente sobre o alimento daquela pessoa. Quanto mais alto a fumaça se levantar após tocá-lo, maior é energia vital do examinado e melhor sua saúde.

"Nós carregamos nosso espírito e, muitas vezes, por falha nossa, ele se sente mal com nosso corpo".

Kuaray Papá

Receber do Grande Espírito o nome de uma criança é um dom e não está fácil achar pajés que tenham essa capacidade. Na Tava’í, por exemplo, faz três anos que não há cerimônia de batismo, porque Karaí Reté é um pajé curador, com dons voltados à medicina tradicional. A própria filha do cacique, Eloá, com quatro anos de idade, ainda não recebeu seu nome indígena. Por isso, está sendo planejada uma cerimônia para breve, recorrendo à vinda de um pajé de São Paulo.

Um pajé muito jovem

Esqueça a imagem do pajé curvado pelo tempo, de cabelos brancos e pele marcada pela idade. Na Aldeia Tava’í, o líder espiritual é um jovem de apenas 23 anos de idade e na plenitude do vigor físico. Santiago Fernandes é seu nome não indígena e Karaí Reté é como se chama em Guarani.

 

De vez em quando, abafa a boca do cachimbo com os polegares, fazendo com que a brasa ganhe intensidade. Ao fim da conversa, ambos estão escurecidos pela cinza do tabaco. Tem a companhia do cacique porque não fala português e precisa ter suas respostas traduzidas. Em Guarani, porém, é eloquente. Não há respostas curtas e vacilantes. Depois que o companheiro lhe transmite as perguntas, fica em silêncio e fita o chão por alguns segundos, mas, quando começa a falar, o faz com decisão e alonga consideravelmente as falas.

Boa caminhada; caminhada sagrada.

Santiago foi forjado pajé pelo sofrimento em uma fase da vida determinante para os Guarani, a adolescência. “Nesse período ali, se a gente não andar certo, pode acontecer várias coisas. Ali ele quase partiu para outra vida”, traduz o cacique.

Nascido na aldeia Djejy, situada na província de Misiones, nordeste da Argentina, desde cedo o garoto nutriu interesse pela relação dos Guarani com o sagrado. Ainda criança, frequentava a Casa de Reza e gostava de conversar com os mais velhos. Tinha aproximadamente 16 anos quando seguiu a caminhada para o leste, a Oguatá Porã, passando a viver na comunidade Pacheca, em Camaquã, a 130 quilômetros de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Ali, adoeceu. Não do corpo, mas ficou prostrado diante de alguma força que lhe tirava a vontade.

Não indígena.

Um pajé foi o responsável por “trazer de volta o espírito do bem, que já estava quase se transformando em espírito maligno”, relata. Foi chamado à Opy’i e recebeu um conselho: precisava ficar atento aos caminhos que trilhava para não sofrer novamente.

 

Pouco tempo depois, partiu para a aldeia Amba Porã, em Miracatu, município paulista localizado na Serra do Cafezal, a pouco mais de 150 quilômetros da capital do estado. Jovem, não dera atenção aos conselhos do pajé que lhe salvara a vida. Passou a relacionar-se com uma mulher djuruá e voltou a adoecer.

Um ser sem alma.

“Não sentia nenhuma dor”, esclarece. Mas, por um mês, aproximadamente, não sentia vontade de comer nem de conversar com ninguém. Para quem não é um indígena, não há como explicar o poder que as obsessões espirituais têm, assegura o cacique Kuaray Papá. O homem branco, na cultura Guarani é chamado de mbi’i, incapaz de compreender o que sucedeu a Santiago.

Dessa vez, porém, se viu desamparado pela liderança espiritual da comunidade em que vivia. O relacionamento com uma mulher que não faz parte da etnia o tornava um estranho, não mais aceito na Casa de Reza. Em certo momento, no entanto, o pajé decidiu ajudá-lo. Patrício é seu cunhado, casado com a irmã, Tereza. Ele realizou uma operação espiritual em que, acreditam, retirou do corpo de Santiago o sangue impuro. Ali, garantiu: “Se cometer mais um erro, você vai morrer”. Mas, além de curá-lo, revelou que a pajelança estava no seu destino.

 

Nesse momento, Santiago estremeceu de medo. Imaginava a responsabilidade que teria sobre as costas sendo um curador. No entanto, acredita que todas as provações que viveu serviram para que tivesse forças para encarar a missão e acabou aceitando sua sorte. “Ser pajé é resultado do sofrimento, da dor, da angústia”, assegura.

 

A partir daí, uma jornada de aprendizado se estendeu à frente de Santiago, que contou com o apoio e orientação do sábio que lhe curara. Sua convivência com os mais velhos desde criança e a sabedoria dos avós na arte da medicina tradicional, no entanto, contribuíram para que conseguisse obter o conhecimento mais tranquilamente. Apesar da pouca idade, sabe exatamente qual folha, chá, erva ou raiz serve para as doenças que acometem seus parentes.

 

Hoje, sente-se bem exercendo a função na Tava’í, sobretudo porque, considera, norteia sua vida pelo amor ao próximo. Sua rotina, como a dos outros jovens da comunidade, é tranquila. Diverte-se, participa dos trabalhos comunitários e da vida social da aldeia. No entanto, por conta da sua posição, tem uma responsabilidade a mais e, apesar da pouca idade, é considerado uma das lideranças da aldeia.

 

Karaí desempenha as faculdades da medicina tradicional visitando os moradores em suas casas, identificando moléstias e curando-as com receitas de remédios naturais que seu povo cultiva de geração em geração. Aqueles que têm algo mais grave, são direcionados para tratamento mais intensivo na Opy’i, onde recebem o batismo ou cirurgias espirituais que o pajé está habilitado a fazer.

 

“Só de olhar pra você, ele já sabe o que você tem”, revela o cacique Kuaray. No entanto, é a pessoa que deve procurar ajuda. O que, com um pajé jovem, é mais tranquilo, afirma, já que o tratamento que dá às pessoas é menos rígido que o dispensado pelos pajés mais antigos. Aqueles, além de trabalhar para curar o corpo, faziam questão de apontar veementemente os erros de conduta que teriam levado a pessoa àquela condição.

Pássaros cantam do lado de fora da Casa de Reza, pousando tranquilamente sobre as telhas de amianto de tom avermelhado. No interior do templo Guarani, o pajé enche mais uma vez a cuia de chimarrão com água quente, o vapor subindo lentamente. Durante toda a conversa, Kuaray e Karaí sentam-se lado a lado, em cadeiras vindas da escola, compartilhando o petanguá e o mate. Volta e meia o cacique bafora a fumaça do tabaco em seus braços, espalhando-a com as mãos, como a se envolver em uma cortina de proteção.

 

Enquanto desfia seu idioma repleto de dígrafos peculiares e vogais nasais, Santiago olha compenetrado para o chão. Conta que a sua relação íntima com o sagrado provoca a resistência de espíritos malignos, que o acossam com tentações. “Ele só faz o bem, então o mal começa a fazer a sua cabeça pra fazer coisas ruins e deixar de lado esse dom que o ser maior deu pra ele”, comenta o cacique.

Para resistir às investidas dos espíritos considerados malignos, o jeito é fortalecer ainda mais a crença em um poder divino. As distrações da juventude são empecilhos que devem ser superados com o avançar da idade. “Quando se tornar mais velho ele vai ficar mais restrito aqui na Casa de Reza e vai se tornar uma espécie de monge”, projeta Kuaray Papá.

 

A bênção do Karai

Santiago puxa a fumaça do cachimbo sagrado incontáveis vezes seguidas. Espalma a mão sobre a cabeça do cacique e sopra a fumaça, que dança entre os cabelos moicanos. Respira fundo e engata uma oração compenetrada. Agradece a Nhamandu, o Sol, pela dádiva do dia, repleto de sabedoria, e pede que abençoe a todos os presentes na Opy’i nesta tarde, a todos os moradores da Tava’í e de todas as aldeias do país. Além disso, pede por paz, saúde, amor e força para seguir lutando pelo modo de ser Guarani. Clama, ainda, para que seja cada vez mais fortalecido na caminhada como pajé, tendo mais ânimo para partilhar o conhecimento com todos os parentes Guarani.

Depois de traduzir a oração, o cacique Kuaray Papá, geralmente muito falante, encerra a conversa tateando em busca das palavras, tomado pela emoção.