ESCOLA KUARAY PAPÁ: APRENDENDO A SER GUARANI

Na cultura Guarani, a língua é a ferramenta através da qual a identidade é mantida. É falando o idioma ancestral que os indígenas se reconhecem enquanto indivíduos pertencentes a um povo, transmitem seus saberes e tradições, ensinam aos mais novos e, então, mantêm viva a essência do que é ser Guarani.

 

Diante disso, a escola, atualmente, tem papel fundamental nas comunidades, porque é nela que se ensina a língua — ainda que, é claro, isso seja feito também no seio das famílias e na convivência entre os membros das aldeias. O ensino formal, no entanto, ganha relevância nesse processo por ser uma maneira de legitimá-la como algo tão importante quanto os demais assuntos ensinados no ambiente escolar.

O papel central que a língua desempenha na cultura do povo Guarani é representado pela posição da escola na Tekoa Tava’í. No centro nervoso da comunidade estão, de um lado, a casa do cacique Kuaray Papá, e, do outro, a escola que leva o seu nome.

A unidade é vinculada à Secretaria de Estado da Educação (SED) e mantém uma ligação com a Secretaria Municipal de Educação, ainda que de maneira informal. O pequeno prédio é modesto, com paredes pintadas predominantemente de verde, os caibros vermelhos, carteiras bege e verde, no padrão das escolas estaduais catarinenses, algumas de um modelo mais recente, outras, do estilo anterior, cadeiras de madeira. A escola tem quatro salas de aula, uma cozinha e uma antiga garagem equipada com uma mesa longa e baixa fazendo as vezes de refeitório. Na parede, o nome da aldeia está escrito sobre o desenho de um petanguá. Durante as férias, entre o primeiro e o segundo semestres deste ano, o local recebeu reforma do telhado, melhorias na rede elétrica e pintura.

Cachimbo utilizado

pelos Guarani.

Aldeia guarani ou lugar do modo de ser guarani.

A Kuaray Papá tem, atualmente, 35 alunos com idades entre quatro e cinquenta anos. A escola oferece o Ensino Fundamental, do primeiro ao nono ano, e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), cujas aulas acontecem no período da noite. Muito em virtude do pequeno número de alunos, as turmas são multisseriadas. Na turma que está em sala de aula na tarde nublada deste 13 de setembro, por exemplo, há alunos de 12 anos de idade e um de 25, que demandam acompanhamentos diferentes dos professores.

O quadro docente é composto por duas não indígenas, responsáveis pela maioria das disciplinas regulares, por uma professora de Matemática, um professor de Guarani e dois recém-incorporados que serão responsáveis pelas aulas de Arte Guarani e Educação Física voltada às atividades tradicionais. Os quatro últimos são indígenas moradores da Tava’í.

 

Escola para servir

“A proposta da escola indígena é outra. Ela está aqui para servir à comunidade, não é uma proposta de escolarização como a gente está acostumado”, pondera Gislaine Fagundes, 31 anos, professora branca que trabalha na escola há sete anos, quando ainda cursava Pedagogia.  

A primeira experiência da carreira a colocou diante de dois mundos que se contrapunham: o da educação regular, pautada por uma metodologia extremamente técnica, com conteúdos pragmáticos e a escolarização como objetivo, e o da educação indígena, em que a abordagem é mais integral, voltada a desenvolver nos alunos um senso de pertencimento à comunidade, à manutenção da língua como pilar da preservação do modo de ser indígena, sem desconsiderar, no entanto, a importância dos conteúdos de uma grade escolar padrão.

Não havia manuais para conciliar essas duas formas de enxergar a Educação, desafio que a professora enfrenta diariamente. Começou tentando aplicar planos de aula que desenvolveu durante a graduação, buscando informações com outros professores, com profissionais da Secretaria de Educação, mas a convivência com a comunidade e o aprendizado gradativo do modo de vida indígena é que proporcionaram uma compreensão mais clara do seu papel enquanto educadora. “Acho que a cada dia eu ainda estou aprendendo”, avalia.

 

Deise Montiel, 35 anos, trabalha há menos tempo na escola. Faz três anos que assumiu o posto de professora de Matemática da aldeia. Além de símbolo de um movimento de emancipação feminina entre as indígenas, ela representa a importância que a formação tem no cenário atual das comunidades.

Inicialmente, ingressou na faculdade de Geografia, mas decidiu mudar a graduação para Matemática por considerar que o curso possibilitaria dar uma contribuição mais significativa para a aldeia em que vivia, em Tacuru (MS), a 450 quilômetros da capital Campo Grande. Além de dar aulas, percebeu que poderia ajudar na organização e planejamento da sua comunidade se tivesse conhecimento dos números. Deise formou-se na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e hoje tem papel importante na gestão da Tekoa Tava’í.

A historiadora Helena Alpini Rosa é coordenadora da Educação do Campo, que engloba a escolarização de camponeses, quilombolas e indígenas, da Secretaria de Estado da Educação do Governo de Santa Catarina. Doutora em Etno-História, salienta a importância de fortalecer as particularidades da educação indígena. “A legislação prevê que eles tenham o direito a uma educação diferenciada, específica, intercultural, bilíngue e comunitária. Esses são os princípios constitucionais para a educação escolar indígena”, pontua.

No entanto, reconhece que há dificuldades para a gestão desse processo, que precisam ser dirimidas através da construção coletiva de uma metodologia que contemple os anseios dos povos tradicionais. “Para os Guarani é uma coisa muito recente. Eles têm escola da década de noventa pra cá”, esclarece.

 

Resolver a complexa equação entre a escola que se tem e a que se pretende ter é o desafio que se apresenta para a gestão educacional. Segundo Helena, há opiniões divergentes entre pais, alunos, profissionais da Educação e a metodologia educacional tradicional que dificultam o consenso sobre o caminho ideal para a escola indígena.

 

“Hoje ainda se discute muito a educação escolar indígena. Ainda há uma estrada longa a se percorrer, mas considero que já avançamos muito”, destaca, ressaltando a necessidade do desenvolvimento de um modelo pedagógico específico para as comunidades indígenas, o que inexiste até o momento.

 

Helena defende o diálogo como caminho para a construção de uma escola mais próxima do ideal, aliado à capacitação de profissionais para trabalharem na educação indígena. Professora na Graduação em Pedagogia Guarani da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), ressalta a relevância de cursos dessa natureza, a exemplo da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para a consolidação de uma proposta educacional ajustada às especificidades dos povos indígenas.

Prazer de ensinar

A tarde na Escola Kuaray Papá tem mesa cheia: arroz, feijão, macarrão e galinha no prato e sorrisos nos rostos dos pequenos alunos do turno. Além deles, alguns outros membros da comunidade sentam-se para comer.

Há a agitação comum a qualquer intervalo em uma escola com crianças dessa idade. A presença de alguém estranho, sobretudo portando câmeras, contribui para o alvoroço. “É pra comer tudo, hein?”, avisa a professora Gislaine. Ela própria não resiste e se serve, colocando, entre risadas, a culpa pela tentação no capricho das cozinheiras com a merenda escolar. Está à vontade, mas nem sempre foi assim.

Ainda jovem, sem sequer ter saído da faculdade, Gislaine esperava lecionar, transmitir conhecimento, alfabetizar. Deparou-se com uma realidade bastante diferente, com a ausência de planejamento escolar específico, com hábitos distintos (a relação com os horários, por exemplo) e com a barreira da língua.

Hoje tem a companhia da irmã, Graziela Fagundes Raymundo, 34 anos, também professora da escola há quase dois anos, e conta com o respeito e o carinho da comunidade.

Nos despedíamos quando uma pequena caminhonete da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Juventude de Canelinha encosta de ré no pátio aos fundos da escola, com a carroceria quase encostando no beirado da escolinha. A própria secretária, Rosângela Maria Leal Cordeiro, desembarca e cumprimenta calorosamente o cacique Kuaray.

As portas do baú do veículo se abrem e começam a ser descarregados diversos itens, aparentemente angariados de maneira completamente aleatória. Um quadro negro, um fogão, carteiras e cadeiras de tamanhos variados e (muito) usadas, que não parecem combinar muito com o restante dos móveis da escola; kits de material escolar contendo réguas, lápis e canetas, além de duas bolas de futebol – estas, sim, novas.

A secretária municipal e a funcionária que a acompanha chamam logo algumas pessoas para ajudar a descarregar a entrega. Aparentam satisfação e garantem que logo serão entregues os itens que ficaram faltando. Tanto os indígenas quanto as professoras agradecem, sem questionar a qualidade dos materiais entregues. Se, por acaso, houve alguma insatisfação, não deixaram transparecer.