PROTAGONISMO FEMININO: A VOZ DAS INDÍGENAS

"Quando meu esposo me chama lá de casa porque tem roupa pra lavar, eu não posso sair correndo porque estou em horário de serviço. Eu tenho que saber diferenciar o meu trabalho [na escola] e o meu trabalho em casa. Estou conseguindo separar isso”.

 

A afirmação de Deise Montiel, 35 anos, pode parecer insignificante no contexto a que estamos acostumados, em que as mulheres estarem inseridas no mercado de trabalho é plenamente normal, ainda que muitas lutas pela igualdade de gênero continuem – legitimamente – sendo travadas.

 

Se pensarmos na sociedade indígena, no entanto, a fala ganha relevância. Nela, o movimento em defesa dos direitos das mulheres é mais recente. É esse movimento por emancipação que permitiu a Deise, por exemplo, cursar a faculdade de Matemática na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Mato Grosso do Sul, e trabalhar como professora na Escola Kuaray Papá, bem em frente à sua casa na Aldeia Tava’í.

 

Deise é natural de Tacuru (MS), cidade a 450 quilômetros da capital Campo Grande. Ela é da etnia Guarani-Kaiowá e mudou-se da Aldeia Sossoró, onde vivia, para Canelinha há sete anos, após ter conhecido o cacique Kuaray pelo Facebook. Depois de um período trocando mensagens pela rede social, Marcelo (é esse o nome do cacique em português) foi visitá-la e engataram um namoro. Antes de deixar sua aldeia para se casar, porém, ela precisava concluir a faculdade. “Aqui não tinha essa faculdade, então eu tinha que me formar primeiro. Eu tenho os meus filhos, penso neles”, comenta.

 

É essa postura – que, novamente, nos pode parecer trivial – que a professora aponta como uma mudança importante no modo de ser da mulher indígena. Segundo Deise, cada vez mais elas estão percebendo que podem desempenhar outros papéis nas comunidades além da condição de donas de casa, mães e esposas a que estavam restritas historicamente.

"É triste, tem muitas mulheres que sofreram abuso, muitas ainda sofrem violência doméstica".

 

Deise Montiel

A luta pela conquista de novos espaços, de acordo com Deise, passa também pelo combate à violência doméstica. “É triste, tem muitas mulheres que sofreram abuso, muitas ainda sofrem violência doméstica. Tem homens que ainda não querem que a mulher saia de casa para trabalhar”, lamenta, enquanto o tom de voz aumenta e o movimento das mãos fica mais intenso, sugerindo certo nervosismo.

A preocupação é justa no cenário que mostra dados aterradores de violência contra as mulheres no país e no estado. Apenas para tratar da face mais cruel da violência de gênero, até outubro deste ano já haviam sido registrados 42 casos de feminicídio em Santa Catarina, o que representa um crescimento de 23,5% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Polícia Civil e da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP).

No país, segundo dados do Atlas da Violência 2019, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), houve aumento de 30,7% no número de feminicídios durante a década analisada (2007-2017), assim como no último ano da série, que registrou aumento de 6,3% em relação ao anterior.

Marcha das Mulheres Indígenas

Agosto foi um mês histórico para a luta das mulheres indígenas. Entre os dias 09 e 14 do mês foi realizada a primeira edição da Marcha das Mulheres Indígenas, em paralelo à sexta edição da Marcha das Margaridas, realizada por camponesas e agricultoras de todo o país, em Brasília.

A mobilização, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), reúne representantes de mais de 110 povos indígenas em defesa de diversas pautas, entre elas a Educação, Saúde, autonomia das populações, respeito ao território e a questão do combate à violência contra as mulheres.

 

O tema da primeira edição da marcha revela um pouco dos seus anseios. “Território: nosso corpo, nosso espírito” carrega a noção abrangente de território que é comum aos povos indígenas, do qual se sentem parte indissociável e tem a terra como extensão de seus corpos.

 

Depois de algumas reuniões para debater as reivindicações que gostariam de levar para o evento, uma comitiva das aldeias Guarani catarinenses rumou para o Distrito Federal, dentre elas sete representantes da Aldeia Tava’í.

“Se a gente fala em mulher indígena a gente pensa que é uma única mulher, mas não é assim”, pondera Deise Montiel. A diversidade de etnias, a variedade de línguas, danças e formas de existir enquanto indivíduo feminino indígena chamaram a sua atenção durante a estada em Brasília. Do Acre, por exemplo, havia mulheres de uma tribo que teve o primeiro contato com não indígenas muito recentemente.

Tamanha diversidade de etnias se reflete, também, na variedade de pautas defendidas por cada povo. Elas eram representadas, segundo Deise, em cartazes e discursos que a marcaram profundamente.

"Se a gente fala em mulher indígena a gente pensa que é uma única mulher, mas não é assim".

 

Deise Montiel

Eníria Solange Oliveira, 22 anos, e Patrícia Oliveira, 18 anos, são duas das integrantes mais jovens da comitiva da Aldeia Tava’í a participarem da marcha. Pouco tempo antes, no fim de julho, as duas já haviam estado na ocupação do prédio do DSEI Interior Sul, em São José, em protesto pela saúde indígena. Desde cedo, portanto, as mulheres da aldeia vêm mantendo contato com os movimentos em defesa dos seus direitos, o que não era comum algum tempo atrás.

O relato das duas é sucinto, entre olhares fugidios e sorrisos encabulados que evidenciam a timidez diante da necessidade de traduzir em palavras uma experiência que viveram através dos sentidos. Eníria até tenta descrever a importância do contato com aquelas índias, que são outras e tantas. Esbarra, porém, na concretude das palavras da língua portuguesa, insignificantes perto da vivência que atravessa a completude do que são.