Sugerimos que você dê o play neste áudio e curta uma apresentação do Grupo de Canto e Dança Nhe’e Ambá enquanto lê a reportagem.

A VONTADE DE BELEZA GUARANI

Kuaray Papá, 33 anos, tinha apenas dezessete e já esperava o primeiro filho. Em uma noite, sonhou com uma dimensão divina, povoada de anjos, na antessala da casa de Tupã, a divindade que representa o Sol na cosmogonia Guarani. Sentiu que Bruno, hoje com 16 anos de idade, era enviado desse lugar sagrado.

Nessa época, Kuaray estava vivendo em Viamão, no Rio Grande do Sul, e iniciava um trabalho como professor na escola da aldeia, que incluía a formação de um coral. O sonho inspirou o nome do grupo: Nhe’e Ambá, a Morada dos Anjos.

Embora jovem, o professor reuniria ali um grupo para transmitir o conhecimento que adquirira tempos antes, quando morava na Aldeia M’Biguaçu, em Biguaçu, Grande Florianópolis. Ali, aprendeu a tocar violão e se interessou pela música tradicional Guarani.

 

Nas cerimônias religiosas, encontros entre parentes, festas e mesmo em ocasiões de protesto, como na ocupação realizada em defesa da saúde indígena no último mês de julho, a música é um elemento sempre presente para os Guarani.

 

A instrumentação é simples, geralmente composta por tambor, chocalhos e violão, com a adição de violino em alguns casos. Utilizando uma afinação diferente da convencional e apenas cinco cordas, a maioria dos violonistas toca sem fazer os acordes do braço do instrumento, apenas tocando as cordas, em ritmo constante. O canto, comumente, é puxado por um homem e respondido em coro pelo grupo, formado por homens e mulheres, que marcam o compasso das canções com os pés.

 

A vontade de Kuaray Papá de falar sobre o Nhandereko frutificou. “Lá no Rio Grande do Sul nós tínhamos muito mais apoio do que aqui”, revela. Suporte que proporcionava uma média de dez apresentações por mês ao coral em turnês pelo estado, sobretudo na região metropolitana de Porto Alegre.

Modo de ser Guarani.

Nosso Pai, Deus.

Além dos shows, o grupo gravou um disco, registrando as músicas compostas por Kuaray. Em suas contas, tem quase quarenta canções de sua autoria que se espalharam pelas aldeias Guarani. Não é raro que, hoje, ele se depare com outros corais cantando as músicas criadas pelo Nhe’e Ambá naquela época. Nelas, fala sobre a relação com o sagrado, a devoção a Nhanderu, o respeito pela vida, o amor pelas crianças e pela natureza.

Quando sua família veio viver em Canelinha, fundando a Aldeia Tava’í, Marcelo (nome não indígena do agora cacique da comunidade) manteve o coral, a partir daí formado por membros da aldeia recém-fundada.

Lugar de fala

O cacique Kuaray Papá circula pelo Espaço de Artes Galeão, no centro de Canelinha, de mãos dadas com a filha Eloá, na tarde do sábado, 21 de setembro. No local acontece a segunda edição da Marafunda Cultural, evento idealizado pelo Olaria Coletivo de Artes e realizado em parceria com a prefeitura do município. O Grupo de Canto e Dança Nhe’e Ambá é uma das atrações e, agora fora dos palcos, Kuaray acompanha e organiza seu pessoal. Ao violão, entoando as canções com voz potente, está o seu irmão, Luciano Benite. O áudio que você – esperamos – está ouvindo neste momento é o registro dessa apresentação.

 

Ao fim da apresentação, aproveita a oportunidade e o microfone para falar aos presentes. Segundo ele, apesar de a Adeia Tava’í ter sido fundada há 12 anos, essa é a primeira vez que o grupo é convidado a se apresentar em um evento dessa natureza na cidade, dando razão a suas reclamações de falta de apoio em comparação ao estado gaúcho.

 

Ouça a fala do cacique aqui:

As manifestações artísticas são, portanto, um importante veículo para a disseminação das mensagens e reivindicações dos Guarani, seja tocando as músicas tradicionais ou criando uma chance como a desta tarde de sábado, em que o microfone fica ao seu alcance.

É, também, possibilidade de intercâmbio e fortalecimento da cultura Mbya, etnia Guarani da qual pertencem. No último mês de outubro, o grupo participou de um encontro de corais Guarani, realizado na Aldeia Rio Silveira, localizada em Boraceia, na divisa entre as cidades de Bertioga e São Sebastião, no estado de São Paulo.

Artesanato

Darcy Ribeiro falou sobre a vontade de beleza que identificava como traço marcante dos povos indígenas. “A índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade”, afirmou.

O artesanato, de fato, é um exemplo significativo dessa característica. Desde muito cedo, os Guarani aprendem a produzir as peças tradicionais e, portanto, quase todos os moradores da Aldeia Tava’í têm habilidade para o trabalho artístico.

 

Há uma divisão entre o que é produzido pelos homens e pelas mulheres. Eles confeccionam o arco e flecha, tacape, lança, machadinha, cocares e instrumentos musicais; elas, por sua vez, produzem colares, brincos, pulseiras, leques, bolsinhas e cestos.

 

Além dessas peças ornamentais e utilitárias, os Guarani produzem as imagens representativas, demonstrando seu respeito à natureza e a Nhanderu. As esculturas em madeira representam com grande semelhança corujas, tucanos, papagaios, quatis, tatus, onças, tamanduás, macacos, entre outros.

 

A perfeição com que esculpem essas esculturas sugere uma observação muito atenta da natureza. Para o povo Guarani, mais do que isso, produzir as representações é uma forma de demonstrar a compreensão dos ensinamentos do seu deus, que manifesta toda a sua exuberância através da natureza.

O mercado se apropria

“O artesanato pra nós é um objeto pessoal, é um objeto de cuidado. Esses objetos têm um valor milenar”, pontua o cacique Kuaray, explicando que a arte nunca teve, para os indígenas, função econômica. Até que, a partir da sua inserção na sociedade capitalista, os povos passaram a sofrer com a falta de recursos e enxergaram no artesanato uma opção de geração de renda.

 

No início da década de 1990, enquanto rodava o Rio Grande do Sul com a família buscando um bom lugar para viver, Kuaray via a comercialização da arte Guarani ganhar força. Muitas vezes, entretanto, esse saber ancestral não valia mais do que uma refeição. “Meu pai tinha que fazer trinta balaios pra vender ou trocar por comida”, recorda.

 

Diante da impossibilidade de fugir à necessidade de obter dinheiro para atender a necessidades básicas, o artesanato se tornou uma das fontes de renda das comunidades indígenas. Elas se valem do movimento turístico das temporadas de verão no litoral catarinense e comercializam as peças nas aldeias, em lojas, feiras e festas religiosas, entre outras ocasiões.